PARTE 1


Batismo: Seu lugar e importância no cristianismo

Nesses dias, o tema batismo tem recebido pouca atenção daqueles a quem muitas pessoas do Senhor buscam sua instrução nos assuntos divinos. Aparentemente, a grande maioria dos que não são sacramentários consideram o batismo como tendo pouca importância. Como consequência natural dessa negligência da doutrina do batismo, a questão em si é amplamente negligenciada.

Além disso, há muitos conflitos de opinião entre os professores em relação ao batismo. Dentre os pontos em disputa estão: o significado do batismo, o modo de administrá-lo e as pessoas a que se destina o batismo. A existência desse conflito, para muitos professores, é a desculpa para evitar o tema. Mas fornece, pelo contrário, uma forte razão pela qual todo crente deve resolver o problema por si mesmo, de joelhos, buscando a mente de Deus sobre isso, conforme expresso na Bíblia.

Não é agradável entrar em controvérsia. Ainda assim, o desejo de evitar assuntos controversos não deveriam permitir controlar aqueles que tem responsabilidades diante de Deus e Seu povo. Se eles fossem, assim como Paulo, “limpo do sangue de todos”, eles deveriam imitá-lo e “jamais deixar de vos anunciar todo o desígnio de Deus.” (At 20:26, 27).

Então indagaríamos se existe qualquer desculpa válida ao conflito existente sobre batismo. O batismo foi incluído entre as poucas e simples instruções as quais o Senhor deu aos Seus discípulos enquanto partia, e que deveria ser cumprido por eles em todas as nações do mundo e em todos os dias dessa longa era (Mt 28:19, 20). Por acaso Ele deixou um daqueles importantes mandamentos em tal obscuridade que há motivos válidos para diferenças de opinião sobre ele? Tal pensamento não pode ser concebível nem por um momento. Não pode ser que haja uma deficiência de clareza nas escrituras. O problema deve estar em nós mesmos. E muito provavelmente está em nossos corações, em vez de em nossa cabeça. Não há dúvida que a vontade de fazer a vontade de Deus nessa questão e aquele que busca Sua vontade para realizá-la, será dado saber sobre a doutrina. Evidentemente não havia incerteza sobre isso no início; pois quando Pedro disse: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado”, não havia ali nenhuma hesitação sobre o que deveria ser feito. Pois está escrito que “Então, os que lhe aceitaram a palavra foram batizados” (At 2:38, 41).

O assunto do batismo tem ultimamente persistido na atenção do escritor de tal forma que o impulsiona a buscar nas escrituras no esforço de assegurar a si mesmo a mente de Deus sobre isso. Um dos resultados desse estudo tem sido para sentenciá-lo a ponderar sobre um assunto que, na luz da palavra de Deus, é de extrema importância. Essa confissão ele se sente obrigado a fazer. E ademais, como uma tentativa de reparar, pelo menos em um pequeno grau, as consequências desta negligência, essas páginas são escritas para os olhos de seus companheiros cristãos; não que eles aceitem suas conclusões, mas que possam examinar as escrituras, cada um por si, como o escrito o fez, para ver se essas coisas assim as são.

Uma coisa precisa ser destacada logo no início, a saber, que a prática do batismo muito precedeu a revelação da doutrina do batismo. O significado espiritual do batismo não havia sido explicado até as epístolas de Paulo serem escritas. Assim sendo, é evidente que um entendimento da doutrina do batismo não é necessária para própria execução do ato. Na verdade, quando confrontados com algum mandamento do Senhor, é melhor que dediquemos nossas mentes a primeiro cumpri-lo e depois investigar com proveito sobre seu significado espiritual. A bíblia frequentemente é estudada com outros propósitos que não são aprender a vontade de Deus para cumpri-las. Há um certo prazer em adquirir conhecimento das escrituras e em mostrar esse conhecimento a outros. Contra essa tendência de nossos enganosos corações, que buscam em toda direção por matéria-prima para alimentar o orgulho humano natural, precisamos estar constantemente vigilantes. Além disso, em alguns grupos cristãos um alto valor é colocado sobre a intimidade com as doutrinas das escrituras; e a habilidade de afirmá-las de acordo com formulários teológicos é considerado como o topo da conquista cristã.

Por outro lado, é certo que o que é agradável aos olhos de Deus não é uma cabeça com bastante estoque de conhecimento bíblico, mas um coração obediente, uma vontade submissa e pés treinados para andar nos Seus santos caminhos.

Muito provavelmente os Israelitas não compreendiam o significado da circuncisão, ou o significado tipológico das ofertas. Mas tal carência de conhecimento não os impedia de seguir as direções dadas na lei.

Assim, quanto ao batismo, aqueles que montam uma certa teoria quanto ao seu significado, decorrentes, talvez, de profundo (ainda que não necessariamente espiritual) estudo das figuras do antigo testamento e então tentam deduzir de tais teorias, conclusões sobre o apropriado cumprimento do ato do batismo, provavelmente irão errar.

As direções que o Senhor deu aos Seus discípulos e que o Espírito de Deus motivou que fossem registradas nos últimos capítulos de Mateus e Marcos respectivamente, foram, e são, amplas o suficiente para o cumprimento apropriado do mandamento do Senhor em sua partida. Devemos, claro, valorizar grandemente a explicação, subsequentemente dada pela inspiração de Deus, sobre o significado espiritual do batismo. Entretanto, tais explicações não são necessárias para o cumprimento dos mandamentos do Senhor. Devemos olhar, antes de tudo, para as Suas palavras: “Disse, na verdade, Moisés: o Senhor Deus vos suscitará dentre vossos irmãos um profeta semelhante a mim; a ele ouvireis em tudo quanto vos disser. Acontecerá que toda alma que não ouvir a esse profeta será exterminada do meio do povo.” (At 3:22, 23).

A importância do Batismo

Deixe-nos de início assegurar qual é a importância do batismo na estimativa do próprio Senhor. Isso podemos aprender observando o lugar onde Ele o deu no Seu último mandamento aos Seus seguidores. Ele os encarregou a fazer discípulos em todas as nações, batizando (os discípulos) no nome do Pai , do Filho e do Espírito Santo. Em conexão com esse encargo Ele deu a promessa: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mt 28:20). O mandamento, então, é para todas as nações da terra, e para todos os dias da era. Este fato testifica fortemente a grande importância do batismo.

A importância do batismo também aparece em sua conexão direta com o NOME (o único Nome, não três nomes) do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Não interrompamos agora para inquirir o que significa ser batizado neste maravilhoso “Nome”; pois, por quaisquer detalhes que estejam envolvidos, não há dúvidas que temos aqui uma questão da mais alta importância. Aquele que foi feito discípulo de Cristo será em seguida batizado para dentro do Divino Nome que representa especialmente a Revelação de Deus nesta dispensação de Graça . O batismo o traz para dentro deste Nome.

A importância do batismo aparece mais a frente nas palavras do Senhor registradas em Marcos 15:15, 16: “E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura (a toda criação). Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.”

Vemos então que pregar o evangelho e batizar são as duas coisas que o Senhor encarregou Seus discípulos a fazerem. Batizar é colocado no mesmo nível que pregar o evangelho, e em segundo lugar, seguido apenas deste. Ainda mais, está conectado diretamente ao crer no evangelho como condição para ser “salvo”. Tendo em vista estas simples e sinceras palavras seria difícil sobre-estimar a importância do batismo.

Quem deve ser Batizado?

Não precisamos buscar além das palavras do próprio Senhor para obter uma resposta certa para esta pergunta. As palavras “quem crer e for batizado será salvo”, indicam claramente que os que criam no evangelho eram aqueles que seriam batizados. A linguagem é clara e precisa. Seu significado é facilmente apreendido pelas pessoas mais simples. Estudos mais aprofundados e eruditos nos tipos e sombras do Antigo Testamento não podem nos ajudar aqui e tal ajuda não é necessária. Apenas deturpando a linguagem usada pelo Senhor pode dar lugar ao conceito de se batizar qualquer um que não tenha ouvido e crido no evangelho.

O evangelho deveria ser pregado a todos. Era previsto que alguns acreditariam e outros não acreditariam, ou seja, rejeitariam a mensagem. Os primeiros deveriam ser batizados, assegurando assim a salvação prometida. As palavras escolhidas pelo Senhor para transmitir Seu último mandamento e que foram registradas pelo Espírito Santo para que pudessem permanecer por longas eras como direcionamento aos Seus discípulos, de fato excluindo do batismo todos exceto aqueles que ouviram o evangelho de Cristo e creram Nele. Não sem deixar de lado as palavras do próprio Senhor sobre o alvo do batismo, pode qualquer um ser batizado exceto os que creram no evangelho. De fato, podemos seguramente afirmar que ainda que os que não creram podem ser imergidos em água acompanhados das palavras corretas, este ato não pode ser um batismo.

A comissão de Cristo aos seus discípulos registrada em Mateus 28:19 não poderia ser mais explícita e clara. Eles deveriam ir e fazer discípulos de todas as nações. O método de fazer discípulos foi evidenciado pelo pregar o evangelho de Cristo crucificado e ressurreto da morte. Não havia, e não há, outro caminho. Aqueles que se tornassem discípulos através do ouvir e crer no evangelho deveriam ser batizados e também deveriam ser ensinados a guardar tudo o que Cristo havia ordenado. Não foi dada nenhuma autorização para se batizar outros além dos que se tornaram discípulos de Cristo. A ordem é, primeiro, fazer discípulos; segundo, batizar; terceiro, ensinar os mandamentos do Senhor. O homem não tem autoridade para mudar a ordem do que foi designado pelo Senhor nem tampouco alterar o que foi designado. Desviar deste mandamento do Senhor é um desvio em relação ao que Ele tornou de fundamental importância ao levar a cargo Sua obra nesta era. Ainda assim, é evidente que o desvio é muito grande e quase generalizado por todo cristianismo. Esta é, sem dúvida, a causa de muita malignidade que tem se abatido sobre a igreja.

O Batismo de João

O batismo não era algo novo quando os discípulos de Jesus começaram, no Pentecostes, a batizar os que recebiam com alegria a palavra que lhes era pregada e lhes chamando ao arrependimento e fé no Jesus ressurreto. Pelo contrário, o significado do batismo, estando relacionado aos pecados confessados pelos pecadores, havia sido amplamente conhecido em toda Judeia e regiões vizinhas, através do ministério de João Batista. A impressão deixada pela pregação e ministério daquele profeta foi tão profunda, que nenhum outro maior surgiu no meio deles nascido de mulher (Mt 11:11), a ponto de “saírem a ter com ele Jerusalém, toda a Judeia e toda circunvizinhança do Jordão; e eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados.” (Mt 3:5, 6); e ainda mais, “estando todo o povo na expectativa, e discorrendo todos no seu íntimo a respeito de joão, se não seria ele, porventura, o próprio Cristo.” (Lc 3:15).

O ministério especial de João era para “preparar o caminho para o Senhor.” Este foi o ministério mais importante já comissionado ao homem. Acrescente a isso o fato de que João foi, pelo próprio Espírito, designado ‘o Batista’ , e nós temos de uma vez o poderoso testemunho divino sobre a importância do batismo.

O “caminho do Senhor” o qual João iria preparar era o caminho da morte, sepultamento e ressurreição. “Assim” o Filho de Deus iria “cumprir toda a justiça.” (Mt 3:15). Esse caminho da justiça era o que estava em vista quando o salmista disse “holocaustos e ofertas pelo pecado não requeres. Então, eu disse: eis aqui estou, no rolo do livro está escrito a meu respeito; agrada-me fazer a Tua vontade, ó Deus meu.” (Sl 40:6-8; Hb 10:5-7). Essa vontade de Deus que Cristo tinha prazer em realizar foi a obra de redenção cumprida pelos Seus sofrimentos, morte e ressurreição. E é isso que o Seu batismo simboliza.

O “caminho do Senhor”, para o cumprimento do Seu poderoso plano em relação ao homem, necessitava da remoção do homem natural, pela morte, da “erva” da humanidade, como profetizado por Isaías predizendo a vinda de João (Is 40:6-8). “A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus.” (1 Co 15:50). Por esta razão, quando o reino estava a ponto de ser proclamado, o precursor apareceu em cena; e sua função foi preparar o caminho em sinal ao colocar pecadores que haviam confessado nas águas do sepultamento. Assim, o solo foi limpo para Deus trazer Sua nova humanidade, nascida de água e Espírito.

E João não apenas proclamou o batismo para pecadores confessos, os quais “reconheceram a justiça de Deus” em Sua condenação do pecado. (Lc 7:29), mas também proclamou o “machado”do julgamento posto à raiz das “árvores”. Por “árvores” entendemos que João quis dizer aqueles que haviam elevado a si mesmos no orgulho da justiça própria, recusando-se serem batizados como pecadores. Aqueles que não desceram às águas de forma voluntária, devem ser cortados e lançados ao fogo. (Mt 3:10).

Mas João tinha algo ainda maior a realizar, no batismo do Senhor Jesus, que percorreu todo o caminho da Galileia ao Jordão chegando expressamente para ser batizado por João (Mt 3:13). Assim Ele se humilhou ao se colocar dentre os transgressores. João percebeu que Jesus não deveria estar em companhia destes, como fica evidente pelo fato dele ter “proibido Ele”. Em seguida o Senhor deu o testemunho mais surpreendente sobre o significado e importância do batismo naquelas notáveis palavras, “Deixa por enquanto, porque, assim, nos convém cumprir toda a justiça.” Nós aprendemos desta fala que o batismo é identificado com aquela poderosa obra de Deus pela qual toda justiça é cumprida. Seria adequado para o leitor fazer uma pausa aqui e ponderar sobre esta grande fala do Senhor Jesus.

Então seguiu-se o batismo do Senhor Jesus Cristo, que era necessário antes Dele entrar na obra que o Pai Lhe deu para realizar. O batismo definitivamente O comissionou ao cumprimento daquela obra através dos sofrimentos da Cruz (Lc 15:50; Jo 19:30).

O registro afirma que “Jesus, saiu logo da água”; e essa emersão das águas do sepultamento, tipificando Sua poderosa ressurreição foi sinalizada por um grande e maravilhoso evento. “Lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.”

Vemos então, conectado ao batismo, a única vez registrada do aparecimento na terra, de maneira expressa, dos Três em cujo Nome (note o número singular “Nome”, não “Nomes”) o Senhor ordenou que os que cressem Nele fossem batizados (Mt 28:19).

Assim, o ministério de João nos ensina o profundo significado e a enorme importância do batismo.

Com esta conexão, direcionemos nossa atenção a Lucas 7:24-30. Encontramos ali o registro do testemunho do Senhor relacionado a João, de que ele era verdadeiramente o precursor profetizado por Malaquias (Ml 3:1), e que dentre aqueles nascidos de mulher não se levantou maior profeta que ele. Então vem a seguinte declaração:

“Todo o povo que o ouviu e até os publicanos reconheceram a justiça de Deus, tendo sido batizados com o batismo de João; mas os fariseus e os intérpretes da Lei rejeitaram, quanto a si mesmos, o desígnio de Deus, não tendo sido batizados por ele.” (Lc 7:29-30).

Este ensinamento é da mais alta importância. Os pecadores que se submeteram a serem batizados, reconheceram assim a justiça a Deus. Enquanto aqueles que não foram batizados rejeitaram os desígnios de Deus contra eles mesmos. Isso nos diz claramente o que está envolvido no ato do batismo, sendo que o ponto primordial tem um aspecto relacionado a Deus. Como o apóstolo Pedro escreveu, é a “indagação de uma boa consciência para com Deus ” (1Pe 3:21). É a justiça a Deus no Seu tratamento com os pecadores. Isto declara que Deus é justo em decretar a morte do homem que pecou.

Sendo assim, o batismo de João simbolicamente eliminou todo esforço humano de obter justiça e salvação. Ele lançou por terra e enterrou de vez toda tentativa de melhorias da velha natureza. Declarou o completo fracasso de todo esforço deste tipo, até mesmo quando estes esforços vinham de um povo seleto, apoiado pela santa lei de Deus. Isso preparou o caminho para a justiça de Deus e a salvação de Deus, também anunciadas por Isaías em várias passagens (veja Is 51:5-8, 52:7 até 53:12, etc.), onde o Servo de Jeová deveria cumprir por meio da morte expiatória e Sua ressurreição.

No batismo de João não é mencionado de onde surgiram aqueles que eram batizados exceto no caso do Senhor Jesus. Assim, não temos nenhum indício nos registros inspirados de João sobre a ressurreição destes, exceto no batismo do Senhor. Então, o símbolo da ressurreição aparece de forma clara nas importantes palavras: “Batizado Jesus, saiu logo da água.”

Logo após este símbolo profético da Sua ressurreição, ocorreu aquele maravilhoso evento, pelo qual Deus anunciou a presença na terra de um Homem de uma nova ordem, um Homem sobre o qual o Espírito de Deus podia pousar e podia permanecer Nele (Jo 1:32, 33), e para O qual a própria voz de Deus declarou ser o Filho amado. E isso ocorreu no Seu batismo.

Mas as palavras “justiça de Deus” vão ainda além. Deus, ao justificar o pecador, precisa ser justificado. A justiça de Deus deve ser valorizada. Sobre ela, não deve haver falha. Se Ele perdoa, Ele deve fazê-lo de acordo com a rígida justiça, a qual não permite nenhum ato falho passar impune. Portanto, no ato que revela a graça de Deus ao justificar um pecador crente, através da redenção que há em Cristo Jesus, vemos que a justiça de Deus é o fato mais notável, sendo mencionado seis vezes nos seis versículos de Romanos 3:21-26. O próprio Senhor Jesus, ao se submeter a ser batizado por João, disse: “assim, nos convém cumprir toda a justiça.” Era pela Sua morte que toda a justiça seria cumprida. Pois era no seu sangue (que significa a vida tomada com violência) que Deus mostraria Sua justiça, não apenas para a remissão de pecados anteriormente cometidos, pela tolerância de Deus (Rm 3:25), mas também para demonstração da Sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus. Desta forma, Cristo justificou a Deus ao perdoar os pecados anteriormente cometidos assim como no tempo presente, assim como no tempo futuro. Toda justiça foi assim cumprida.

E agora o pecador crente, que Deus justificou sob a base da justiça da redenção que há em Jesus Cristo, é chamado a justificar Deus ao fazê-lo. Pois o pecador crente, sendo batizado, é batizado na morte de Cristo (Rm 6:3); e por meio deste ato declara que de nenhum outro modo a não ser pela morte de Cristo Jesus seus pecados poderiam ser perdoados de forma justa. Disto podemos aprender que o batismo é necessariamente um ato individual e voluntário. Que o leitor julgue por si mesmo se não é de suma importância que se junte à morte de Cristo e seja um participante dos benefícios dela. Isso é o que o batismo significa de acordo com o nítido ensinamento de Romanos 6:3.

Considerar essas escrituras torna muito simples o motivo pelo qual Deus deu ao batismo a posição de peculiar importância na doutrina e prática cristã.

A Prática dos Apóstolos

Os últimos trechos do Novo Testamento que mencionam o batismo, estão, claro, totalmente de acordo com as palavras do próprio Senhor ao determiná-lo. Se assim não fossem, deveríamos desconsiderar a prática e obedecer o mandamento. Temos, entretanto, o triplo testemunho, primeiramente das direções do próprio Senhor; segundo, da prática dos apóstolos diretamente guiados pelo Espírito Santo, como registrado em Atos; e terceiro, da doutrina sobre o batismo dada a nós pelas epístolas. Estes três distintos testemunhos estão em perfeito consenso.

No mesmo dia em que o Espírito Santo desceu sobre os discípulos, eles cumpriram o mandamento do Senhor, fazendo isso na energia do Espírito divino, sob Seu controle. Assim, podemos ter absoluta certeza de que o que está registrado sobre os atos dos apóstolos no dia de Pentecostes nos fornece a instrução divina sobre os detalhes do batismo. Pedro pregou a palavra, anunciando a ressurreição de Jesus Cristo. Aqueles que a ouviram, tiveram seus corações perfurados e questionaram: “que faremos?”. Então Pedro lhes respondeu: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.” Então, aqueles “que lhe aceitaram a palavra foram batizados”.

Aqui temos a pregação do Evangelho e seus efeitos nos corações daqueles que ouviram, levando-os a se voltar ao Senhor (ou seja, se arrepender). Tornando-se assim discípulos Dele, O qual anteriormente havia sido rejeitado por toda nação, estes eram batizados no (literalmente em) Seu Nome. Não houve delongas sobre isso. Não foi necessário um estudo sobre a doutrina e significado tipológico do batismo. Não foram submetidos a um período de experiência. Foi realizado no mesmo dia (At 2:37-41).

Tal foi a firme prática. O evangelho foi pregado, anunciando a ressurreição daquele que foi crucificado; e logo após, aqueles que ao ouvir, creram , foram prontamente batizados e “acrescentados” ao convívio dos cristãos. Crer é a única e indispensável qualificação para o batismo.

Pouco tempo depois, Filipe desceu à Samaria e “anunciava-lhes a Cristo” (At 8:5). E quando “deram crédito a Filipe” (creram), que os evangelizava a respeito do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, iam sendo batizados, assim homens como mulheres” (v. 12). Eles ouviram o evangelho, eles creram, eles foram batizados. E para deixar essa questão mais clara, é-nos dito, “assim homens como mulheres.” Nenhum bebê ou criança são mencionados aqui ou em qualquer lugar.

No próximo versículo nós lemos que o próprio Simão também creu e “tendo sido batizado, acompanhava a Filipe de perto”. Alguns comentam que Simão Magnus era alguém que “apenas professava”. Se fosse verdade, isso abriria uma base legal para batizar incrédulos. Mas está dito claramente que Simão “creu” e foi “batizado”; e as palavras do Senhor foram: “Quem crer e for batizado será salvo.” Portanto, devemos considerar Simão como um homem “salvo”. O desejo de Simão pelo poder de conferir o Espírito Santo sobre outros e sua oferta de dinheiro para obter este poder, não prova que ele era um homem não convertido. Muitos desejos malignos entram nos corações dos convertidos, principalmente quando ainda jovens na fé. As palavras de Pedro também não provam que Simão era um homem não convertido. Pelo contrário, pois Pedro o exorta ao arrependimento e oração a Deus; pois talvez lhe fosse perdoado o intento do coração. Tal declaração não poderia ser adequadamente dirigida a um homem não convertido. O que uma pessoa não regenerada precisa não é orar a Deus para que os desejos do seu coração sejam perdoados, mas se arrepender e crer no Senhor Jesus Cristo. As palavras “não tens parte nem sorte neste ministério” evidencia parte e sorte na imposição de mãos. A autoridade de dar o Espírito Santo através da imposição de mãos pertencia apenas aos apóstolos.

No mesmo capítulo, Filipe se encontra com o etíope que, enquanto viajava pelo deserto, lia Isaías 53. Em seguida, Filipe prega Jesus a ele (evangelisato, ou seja, pregação do evangelho). O etíope evidenciou ter crido na pregação, pois pediu para ser batizado, pedido este que foi atendido. Foi somente após Filipe ter batizado o etíope que o Espírito o arrebatou. Isso mostra que, enquanto aquele mandamento do Senhor não fosse cumprido, o ministério de Filipe não estaria completo. Aqui está uma clara lição aos que pregam o evangelho hoje. A incomum importância deste incidente é indicada pelo fato do Espírito Santo lidar diretamente com Filipe três vezes no curso deste acontecimento. 1) Ele enviou Filipe para aquele lugar específico (v. 26); 2) Ele conduziu Filipe com detalhes sobre o que ele deveria fazer (v.29); 3) Ele arrebatou Filipe imediatamente após o batismo, evidenciando aprovação divina na execução daqueles atos, não havendo uma intervenção para uma fase probatória (v. 39). Evidentemente é uma usurpação de autoridade alguém inserir um tempo de espera para batizar alguém que confessou sua fé em Cristo.

Em Atos 9, Saulo de Tarso, tendo-se convertido, levantou-se e foi batizado assim que um discípulo veio a ele (v. 18). Apesar de Saulo estar em jejum por três dias, ele não atrasou seu batismo até que comesse algo (v. 9 e 19).

Em Atos 10 lemos sobre a primeira proclamação do evangelho a uma comunidade de gentios. Esta comunidade estava reunida na casa de Cornélio. Pedro, após ter sido expressamente enviado pelo Espírito Santo e após uma preparação especial para este ministério, pregou à eles as Boas Novas de Cristo ressurreto dos mortos, anunciando perdão dos pecados através do Seu Nome, a todos que cressem Nele. Em seguida, “caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra.” Esta foi uma extraordinária inversão da ordem comum, quando o batismo com Espírito ocorria após o batismo na água. Mas o motivo é revelado. Pedro sem dúvida teria hesitado em batizar os gentios no Nome divino. Mas o derramar do Espírito Santo sobre eles os marcou de forma clara como aptos ao batismo na água. Então Pedro disse: “Porventura pode alguém recusar a água” (artigo definido no original, indicando a água de batismo) “para que não sejam batizados estes que, assim como nós, receberam o Espírito Santo? E ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo.”

Neste caso, assim como nos casos anteriormente destacados, o batismo foi administrado tão logo a palavra pregada foi crida. E novamente o Espírito Santo deixou claro que o ministério do pregador não estava completo até que ele tivesse batizado os crentes.